Fundação simbólica e racionalidade discursiva na fala de Juscelino Kubitschek na inauguração de Brasília

Conteúdo do artigo principal

Ibiraci de Alencar Chagas
Isabel Cristina Michelan de Azevedo

Resumo

Este artigo analisa o pronunciamento do presidente Juscelino Kubitschek na inauguração de Brasília (21 de abril de 1960) como acontecimento discursivo fundador, responsável não apenas por acompanhar, mas por instituir simbolicamente o sentido da nova capital. À luz da Problematologia de Michel Meyer, o discurso é compreendido como resposta a um problema político e retórico específico: a necessidade de legitimar historicamente um empreendimento marcado por altos custos materiais e forte contestação política. Argumenta-se que a eficácia do pronunciamento reside menos na apresentação de argumentos isolados do que na capacidade de fechar progressivamente o campo do questionável. No plano da racionalidade discursiva, a controvérsia é convertida em prova de maturidade nacional, a escolha política em necessidade histórica, o tempo aberto em continuidade orientada, o dissenso em consenso afetivo e a deliberação em autoridade decisória. No plano da fundação simbólica, a interiorização da capital é apresentada como gesto geopolítico de recentramento, síntese identitária do diverso nacional e cumprimento de um destino histórico. A convergência desses movimentos produz um efeito de naturalização pelo qual Brasília deixa de ser percebida como resposta contingente e passa a operar como pressuposto historicamente estabilizado da própria inteligibilidade do país. O artigo mostra, assim, por meio da lente meyeriana, o papel decisivo da linguagem na transformação de decisões políticas contingentes em respostas estabilizadas, capazes de apagar o espaço da interrogação e reconfigurar o horizonte do pensável.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Detalhes do artigo

Como Citar
Chagas, I. de A. ., & Azevedo, I. C. M. de . (2026). Fundação simbólica e racionalidade discursiva na fala de Juscelino Kubitschek na inauguração de Brasília. Rétor, 16(1). https://doi.org/10.61146/retor.v16.n1.271
Seção
Artículos

Referências

Amossy, R. (2016). L’argumentation dans le discours. Paris: Armand Colin.

Campbell, K. K. e Jamieson, K. H. (1990). Deeds Done in Words: Presidential Rhetoric and the Genres of Governance. Chicago: The University of Chicago Press.

Charland, M. (1987). Constitutive Rhetoric: The Case of the Peuple Québécois. Quarterly Journal of Speech, v. 73, n. 2, p. 133-150.

Dagatti, M. (2012). El estadista oculto: el ethos gubernamental en los discursos públicos presidenciales de Néstor Kirchner. Rétor, 2, 1, 55-93.

http://www.aaretorica.org/revista/index.php/retor/article/view/145/139

Gomes, A. L. de A. (2008). Brasília: de espaço a lugar, de sertão a capital (1956 – 1960). Brasília, DF. (Tese de Doutorado, Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em História). https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/brasilia/trabalhos/OCR_GOMES.pdf.

Holston, J. (1989). The modernist city: an anthropological critique of Brasília. Chicago:

University of Chicago Press.

Kubitschek, J. (2000). Por que construí Brasília. Senado Federal, Conselho Editorial.

http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/1039

Kubitschek, J. (2009). Discurso na inauguração de Brasília (Brasília, 21 abr. 1960).

In: Kubitschek, Juscelino. Discursos selecionados do Presidente Juscelino Kubitschek. Organização de Luíza Helena Nunes Pinto. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, p. 51–53.

https://funag.gov.br/loja/download/628-Discursos_jk.pdf

Lessa, C. (2000). O Rio de todos os Brasis: uma reflexão em busca de autoestima. 2 ed.

Rio de Janeiro: Record.

Maingueneau, Dominique. (2016). Analyser des textes de communication. Paris: Armand

Colin.

McGee, M. C. (1980). The “Ideograph”: A Link Between Rhetoric and Ideology. In: Farrell, Thomas B. (ed.). Landmark Essays on Contemporary Rhetoric. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, Inc.

Meyer, M. (1995). Of problematology: philosophy, science, and language. Chicago:

University of Chicago Press.

Meyer, M. (2000). Prefácio. In: Aristóteles. Retórica das paixões. (pp. XVII-LI) São Paulo: Martins Fontes.

Meyer, M. (2009). Comment repenser le rapport de la rhétorique et de l’argumentation?

Argumentation et Analyse du Discours, 2, 1-5. https://www.researchgate.net/publication/30424281_Comment_repenser_le_rapport_de_la_rhetorique_et_de_l’argumentation

Meyer, M. (2010). La problématologie. Paris: Presses Universitaires de France.

Meyer, M. (2013). Principia Rhetorica. Una teoría general de la argumentación. Buenos Aires: Amorrortu.

Skidmore, T. E. (1982). Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Rio

de Janeiro: Paz e Terra.

Vieira, V. G. de C. (2005). “E a história se fez cidade...”. A construção histórica e historiográfica de Brasília. Campinas, SP. (Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas, Departamento de História). https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/brasilia/trabalhos/OCR_CEBALLOS.pdf